Os Rutles do Iê-iê-iê

Na metade da década de 70, o Eric Idle, do legendário Monty Python, tinha um programa de humor na TV inglesa. Em um dos quadros, ele criou a fictícia banda de rock The Rutles, na verdade uma das mais geniais paródias aos Beatles. Em 1978, quando Idle foi convidado a participar do Saturday Night Live, o produtor executivo do programa, Lorne Michaels, se entusiasmou com a ideia dos Rutles e propôs um "documentário-ficcional" de uma hora contando a ascensão e queda da banda "pré-Fab Four". O resultado foi All You Need is Cash.

Tomando como base a real história dos Beatles, o filme é uma aula de humor. Idle recrutou músicos de verdade para compor as músicas, todas elas sátiras geniais aos sons do quarteto de Liverpool, infinitamente superiores a qualquer pastiche que o Oasis já tenha feito. No filme, Eric Idle encarna Dirk McQuickly (baseado em Paul McCartney), enquanto os músicos Neil Innes, Ricky Fataar e John Halsey fazem, respectivamente, Ron Nasty (John Lennon), Stig O'Hara (George Harrison) e Barry Wom (Ringo Star).

Há momentos impagáveis como a revelação de que os Rutles criaram o revolucionário álbum Sergeant Rutter's Only Darts Club Band sob influência do chá, apresentado ao grupo pelo Bob Dylan; ou um muito sério e bem cara-de-pau Mick Jagger dando seu depoimento sobre os Rutles. Só saiu em DVD lá fora, mas vale ir atrás.


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Claro que a piada tomou outras proporções e uma trilha sonora com 14 "clássicos" dos Rutles foi lançada na época. Em 1990, ela ganhou reedição em CD com seis faixas extras. Chama-se simplesmente The Rutles e só os títulos das canções são de rachar de rir ("Ouch!", "Piggy in The Middle", "Blue Suede Schubert" e por aí vai). Seis anos depois, voltaram à ativa (menos Idle) e tiraram uma onda com o Anthology, lançando Archaeology, repleto de gravações "raras".

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Também em 1990, a coisa ficou mais surreal ainda com o lançamento de Rutles Highway Revisited, um álbum tributo (?!?!) com gente do rock alternativo como Shonen Knife, Galaxie 500 e Daniel Johnston revisitando as músicas dos Rutles. Sensacional.

Psycho killers

Dentre as bandas esquisitas dos esquisitos anos 60, poucas superam o Red Crayola. Natural do Texas (que deu ao mundo ao menos outros dois bandos de doidões seminais, o 13th Floor Elevators e o Moving Sidewalks), o grupo contava em sua formação original com Mayo Thompson, Frederick Barthelme e Steve Cunningham. O primeiro disco dos caras, The Parable Of Arable Land (1967), é uma das pedras fundamentais da psicodelia misturada à música de vanguarda, experimental.

São seis faixas executadas pelo trio, entremeadas por cacofonias do inferno (chamadas de "Free Form Freak-Outs") executadas por cerca de 50 "amigos" da banda, que apareciam nas gravações levando sinos, motos, garrafas, órgãos, guitarras, martelos e qualquer coisa que pudesse fazer barulho. Caos organizado, música difícil, porém de uma loucura instigante. Imagine um Zappa dos primeiros anos elevado à enésima potência de insanidade.

O trio ainda chegou a gravar mais dois discos, Coconut Hotel, também de 1967 mas que só seria lançado em 1995, e God Bless The Red Krayola And All Who Sail With It, de 1968, antes de se separar. Thompson continua até os dias de hoje a se apresentar esporadicamente com o nome do grupo. Por fim, o legado do Red Crayola (ou Krayola) pode ser visto em bandas importantes do chamado pós-rock (gênero que ele ajudou a criar, diga-se de passagem) como Tortoise e grupos como o Spacemen 3. 

Ouça: Hurricane Fighter Plane

O primeiro maldito

Tava arrumando uns livros aqui e, quando peguei a obra-prima Fome, do Knut Hamsun - uma edição de 1971, capa dura, coisa fina, tradução do Carlos Drummond de Andrade, que comprei num sebo há alguns anos -, achei que merecia um post. Fome (Sult, no original) foi publicado em 1890 e é um relato barra-pesada e quase auto-biográfico sobre um escritor sem porvir que passa os dias nas ruas de Oslo (então Cristiânia), faminto, vivendo de trocados, delirando de inanição e chegando à beira da loucura.

Knut Hamsun (1859-1952) é um dos autores mais importantes da Noruega e sua vida foi marcada pela controvérsia. Passou boa parte da infância e da adolescência na pobreza e começou a escrever aos 17 anos.  Por conta de Fome, Hamsun é considerado precursor de escritores "malditos" do século 20, como Bukowski, John Fante, Kafka e Henry Miller. Ecos do trabalho dele também podem ser encontrados até no Apanhador no Campo de Centeio, do Sallinger, muito em função do bizarro monólogo interno do protagonista e de seu surreal fluxo de consciência.

Em 1920, ganhou o Prêmio Nobel por sua obra. A polêmica surgiu ao apoiar os nazistas quando a Alemanha invadiu seu país durante a Segunda Guerra. Foi execrado em sua terra e no resto do mundo. Só conseguiu ser reabilitado após sua morte. Por sorte, esse péssimo escorregão hitlerista jamais se refletiu em seus livros. E, afinal, às vezes é preciso separar o artista do ser-humano, certo?

Em 1966, Fome ganhou uma versão para o cinema numa co-produção Norueguesa, Dinamarquesa e Sueca. O filme é bastante fiel ao livro e foi lançado em DVD no Brasil. Vale o clichê: Leia o livro, veja o filme.


Coisas bem estranhas

Que delícia de série essa Stranger Things, da Netflix. Ambientada em 1983, numa daquelas típicas cidadezinhas norte-americanas – chamada Hawkins, pegou? -, é uma ode à chamada “década perdida”. Após uma partida de RPG com os amigos Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin), o garoto Will Byers (Noah Schnapp) desaparece. Paralelamente, uma misteriosa menina de cabelos raspados, chamada apenas Eleven (Millie Bobby Brown), surge na cidade.

O desaparecimento de Will leva sua mãe, Joyce (em uma interpretação bem digna da sumida Winona Ryder) a buscar ajuda do xerife local, Jim Hopper (David Harbour). A eles, acabam se juntando o irmão de Will, Jonathan (Charlie Heaton), e a irmã de Mike, Nancy Wheeler (Natalia Dyer). Enquanto isso, os garotos conhecem Eleven e também saem à procura do amigo. Do lado da vilania, há um laboratório militar, liderado pelo soturno Dr. Brenner (Matthew Modine), em que algo deu muito errado e que se conecta ao sumiço de Will e à presença de Eleven. Com o desenrolar dos episódios (a primeira temporada tem apenas oito, todos já disponíveis na Netflix; uma segunda temporada já foi confirmada), a  trama vai ganhando aquele climão meio-surtado-mas-ainda-assim-bem-bacana dos longas de terror e ficção-científica dos anos 80.

Com uma fotografia primorosa e interpretações excelentes (especialmente pelo núcleo infantil), o que faz a série ser apaixonante é a sua estética anos 80 - a trilha incidental é maravilhosa - e as incontáveis referências. Além dos óbvios Stephen King e Steven Spielberg (sobretudo E.T. e Tubarão), é um deleite sacar as homenagens descarregadas pelos criadores da série, os iniciantes Duffer Brothers.

Elas vão de Conta Comigo, Carrie, A EstranhaGoonies e Poltergeist ao malucão Viagens Alucinantes e até mesmo Rambo e um sem fim de "momentos Star Wars". O nome de uma das mocinhas, Nancy, sintomaticamente é o mesmo da heroína de A Hora Do Pesadelo. Eu ainda vi uma citação ao Curtindo A Vida Adoidado em uma cena curtinha e juro que ouvi mentalmente a música do Contatos Imediatos do Terceiro Grau em uma sequência com luzes. A trilha sonora, por sua vez, está à altura, com pérolas de gente como Joy Division e New Order. E, no mais, qualquer série que tenha como um dos seus elementos-chave a música “Should I Stay Or Should I Go”, do Clash, só pode ser boa.

R.I.P. Alan Vega

Uma tristeza a morte do Alan Vega no fim de semana, aos 78 anos, enquanto dormia. Ao lado do Martin Rev, criou, em Nova York, nos anos 70, o duo Suicide. Responsáveis por um proto-punk-eletrônico, foram pioneiros do synth pop, pós-punk, rock industrial e grande influência em toda a música alternativa posterior. O primeiro disco deles, chamado apenas Suicide, é atualmente considerado um dos trabalhos mais visionários do período. Descanse em paz.

Descobertas de uma madrugada bêbada

Faz algumas semanas, durante uma festa, madrugada adentro e várias biritas na cabeça, um amigão deste blog me mostrou a música “Sunday Morning”, da Margo Guryan, lançada em 1968. No dia seguinte fui atrás do trabalho dela. Fiquei apaixonado.

Compositora, letrista, musicista e cantora, ela foi criada em Nova York. De uma família de músicos, ainda criança começou a estudar piano. Durante os anos na faculdade, descobriu o jazz e passou a compor temas nesse estilo.

Logo, arrumou um contrato com a Atlantic Records para gravar um disco como cantora. Mas não foi adiante, por conta de sua inexperiência em estúdio e sua voz fraca. Ela mesma, na época, declarou: “eu simplesmente não conseguia cantar!”. Ainda assim, manteve-se empregada, apenas como compositora, contribuindo com nomes como Ornette Coleman e Harry Belafonte.

Na segunda metade dos anos 60, teve contato com “God Only Knows”, faixa do álbum Pet Sounds, dos Beach Boys, e ficou fissurada pela canção, ouvindo-a ininterruptamente. Dessa experiência, nasceu a música “Think Of Rain”. Satisfeita com o resultado, passou a escrever outras canções, que viriam a fazer parte de seu primeiro e único disco, Take A Picture, lançado em 1968.

No ano anterior, Guryan já tinha sentido o gosto do sucesso ao ver a sua “Sunday Morning” chegar às paradas pelas mãos da banda de folk-rock Spanky And Our Gang. Com um certo burburinho em torno do nome Margo Guryan, ela estava pronta para tentar novamente gravar um disco como cantora.

Take A Picture trouxe, além de “Think Of Rain” e “Sunday Morning” (que no mesmo ano ganhou uma versão francesa da cantora Marie Laforét, intitulada “Et Si Je T’Aime”), outras nove faixas de autoria de Guryan. É um pop altamente refinado, que passeia pelo jazz, folk, rock e até música erudita. “Someone I Know”, por exemplo, é feita em cima da melodia de “Jesus, Alegria Dos Homens”, do Bach. Já a faixa “Love” tem uma introdução experimental que deságua em um rock mezzo Beatles fase Abbey Road.

O álbum foi elogiado pela crítica quando de seu lançamento, mas Margo, casada com um músico de jazz na época e ciente das dificuldades da vida na estrada, se recusou a sair em turnê. Como resultado, a gravadora desistiu de promover o disco e ele não fez o sucesso merecido.

Aparentemente sem se preocupar muito com isso, Guryan deu de ombros e voltou a trabalhar apenas como compositora. Também passou a se dedicar a dar aulas de piano e a produzir livros de música para estudantes. Permaneceu em um certo ostracismo até o fim dos anos 90, quando foi redescoberta. Em 2000, Take A Picture foi relançado com três faixas adicionais: “I Think A Lot About You”, “It’s Alright Now” e “Timothy Gone”. No ano seguinte, saiu a compilação 25 Demos, com singles e canções inéditas, que ganharia uma versão “vitaminada” em 2014 chamada 27 Demos. Atualmente, Margo Guryan está com 78 anos e feliz dando suas aulas de piano.

Zombies eternos

A história do rock está repleta de gente que é, digamos, azarada. O Zombies tá nesse clube. Quando a banda britânica lançou seu terceiro disco, Odessey and Oracle – a palavra “odessey” saiu grafada assim na capa, sabe-se lá o motivo -, em 1968, era o momento de eles estourarem e se tornarem daqueles grupos conhecidos por todo mundo.

O álbum é uma pequena obra-prima, considerado a resposta britânica ao Pet Sounds, dos Beach Boys. Só que o grupo, por conta de brigas internas, acabou ANTES do disco chegar às lojas. Odessey... foi praticamente ignorado num primeiro momento e só no ano seguinte uma das faixas, "Time of the Season" - a famigerada canção que os Mutantes usaram como base para “Ando Meio Desligado” -, começou a fazer sucesso.

O disco, com 12 faixas, abre e fecha com duas preciosidades, respectivamente “Care of Cell" – cuja letra trata de um tema inesperado: a carta a uma namorada que está passando um tempo na cadeia –, e a já citada “Time of The Season”. Entre elas, a dupla de compositores Rod Argent e Chris White mostra seu poder de fogo, em composições repletas de melodias poderosas, complexas, com elementos de pop, psicodelia, estrutura de jazz, arrepiantes. As guitarras são sutis e as canções privilegiam arranjos de cordas, pianos e vocalizações de outro mundo. Coisas como “Beechwood Park”, “Hung Up On A Dream” e “Friends Of Mine” são de levar às lagrimas.

Hoje em dia, o álbum é considerado antológico, um dos melhores feitos nos anos 60. Mas é de imaginar até onde a banda teria chegado se tivesse continuado na ativa. Anos depois, foi lançada uma edição em CD, com capinha de papel e tudo, que traz nada menos do que 18 faixas-bônus para tornar o petisco ainda mais saboroso. É um CD que eu ouço ao menos uma vez por semana e não me canso. Sabe aquela história de quais discos você levaria para uma ilha deserta e blablablá? Este seria um deles.

E o Alex Cox, hein?

Nos anos 80, Alex Cox era, ao lado do Jim Jarmusch, um dos diretores independentes que eu mais curtia. Ao contrário de Jarmusch, que continuou produzindo, até mesmo com um certo reconhecimento, e teve seus filmes lançados no Brasil, tanto no cinema quanto em DVD, Cox simplesmente "desapareceu".

Explico. Tenho em DVD o ótimo Sid & Nancy, cinebiografia do lendário baixista dos Sex Pistols, Sid Vicious, dirigida pelo Cox em 1986, com uma interpretação espírita do Gary Oldman no papel principal e fui procurar outros filmes dele, aos quais assisti na época, pra ver se tinha em DVD e nem cheiro. A saber: Repo Man (1984), Straight To Hell (1987) e Walker (1987).

São três filmes que eu gosto demais. Repo Man foi o primeiro longa do diretor e conta a história repleta de surrealismo de um punk, Otto (papel de Emilio Estevez), que acaba trabalhando no resgate de carros cujos donos não honraram a dívida, o "Repo Man" do título. O filme mistura punk rock, alienígenas, crime e teorias da conspiração. Divertidíssimo.

Já Straight To Hell é um dos meus preferidos. Tem participações do Joe Strummer (The Clash) e da Courtney Love, anos antes de alguém saber quem era Courtney Love. Lembro que na época o filme foi definido como "um faroeste em que nada acontece até que todos os personagens resolvem se matar entre si". 

Walker foi o último filme que eu vi dele. É baseado na história real de William Walker (Ed Harris), um mercenário financiado pelos EUA que invade a Nicarágua para dar um golpe de Estado. Ambientado no século 19, traz o "toque" surreal do diretor, ao mostrar helicópteros, carros e rifles automáticos para fazer um paralelo com o escândalo da época, durante o governo Reagan (para saber mais, aqui).

E, depois disso, não ouvi mais falar do Alex Cox. Fui pesquisar para tentar entender o que aconteceu e, pelo que vi, foi justamente depois de Walker - um fracasso de bilheteria - que o diretor se queimou em Hollywood. Ele mesmo chegou a afirmar que tá na lista-negra de lá. Vi também que ele se tornou um "independente radical" e que continua dirigindo filmes de baixo-orçamento, que mal chegam ao DVD nos Estados Unidos, quanto mais aqui. 

Parece que a última tentativa dele de voltar ao "cinemão" foi em 1996, quando o chamaram para dirigir Medo e Delírio, a versão cinematográfica do livro do Hunter Thompson. De gênio difícil, Cox se desentendeu tanto com o produtor quanto com Thompson, e o filme foi parar nas mãos do Terry Gilliam, com Johnny Depp no papel principal.

É uma pena um diretor que prometia muito, criativo, iconoclasta, ter se queimado dessa maneira. Alguma boa alma podia, ao menos, lançar um box com os quatro primeiros filmes dele por aqui. Não custa sonhar.

Free your mind

Tá aí uma compilação da pesada. Trata-se da What It Is! Funky Soul And Rare Grooves (1967-1977), nada menos do que um box com 91 (?!?!) pedradas do soul/funk das antigas divididas em quatro CDs. Pra quem se interessa pelo gênero, é uma aula.

Foi lançada em 2006 e, ao contrário de várias coletâneas do tipo, garimpou muitas, mas muitas obscuridades. Tudo bem, traz faixas de medalhões como Aretha Franklin, Wilson Picket, Commodores e Curtis Mayfield, mas a preocupação foi em buscar as menos manjadas deles possíveis. Existem ainda algumas gratas surpresas, como o pioneiro do rock, Little Richard, mandando um funkão de arrepiar (“Nuki Suki”) e uma versão funk-indiana de “Jumpin’ Jack Flash” (Rolling Stones) pelas mãos do citarista Ananda Shankar – sobrinho do Ravi Shankar.

Entre os nomes menos conhecidos, vale destacar o sensacional Cold Blood, com “Kissing My Love”, Ed Robinson (“Face It”) e o grande Baby Huey com “Hard Times”, além da Joyce Jones (“Help Me Make Up My Mind”) e do Johnny Cameron & The Camerons, com “Funky John” – que o Red Hot Chili Peppers dever ter escutado até furar.

Quer dar uma festinha descolada e maneira? Vá atrás desse box e deixe rolando. Sucesso garantido.

Aventura

Fato: Marquee Moon, álbum de estreia do Television, lançado em 1977, é daquelas obras-primas incontestes do rock. Está em diversas listas respeitáveis de melhores discos de todos os tempos. Mas o segundo trabalho deles, Adventure, do ano seguinte, infelizmente é pouco citado/lembrado, ainda que seja tão bom quanto. A própria banda, de certa maneira, o renega - da primeira vez que tocaram no Brasil, em 2005, não incluíram nenhuma faixa do álbum em questão no repertório dos shows.

Com o sucesso de Marquee Moon, aclamado por público e crítica, a banda entrou em estúdio com mais tempo, tranquilidade e dinheiro para gravar o disco seguinte. O guitarrista e vocalista Tom Verlaine decidiu que seria um trabalho mais "pop", acessível. A começar pela capa vermelha, uma exigência de Verlaine, que considerava o preto de Marquee Moon muito "negativo". 

Não se engane, porém, com o "pop". Adventure é o Television em grande forma. Ao contrário da crueza urgente de Marquee Moon, o disco trazia uma produção mais limpa e canções mais enxutas, ainda que repletas de camadas e nuances. Uma das marcas registradas da banda, o intricado trabalho de guitarras de Verlaine e Richard Loyd, marca presença também no álbum.

O disco traz duas canções antigas do Television, "Careful" e "Foxhole", esta última com um solo acachapante de Tom Verlaine. As seis faixas restantes foram basicamente criadas enquanto a banda estava em estúdio. Dentre elas, a fantástica "The Fire", com um órgão fantasmagórico e um slide na guitarra feito por Verlaine com uma faca (?!?!).

No mais, da primeira faixa ("Glory") à última ("The Dream's Dream"), Adventure é um trabalho irretocável de uma das bandas prediletas deste seu humilde servo. A edição em CD traz ainda cinco faixas-bônus: "Adventure", "Glory" (numa gravação diferente), "Ain't That Nothin" (uma versão do compacto e uma instrumental) e uma faixa sem título.

O álbum não teve a mesma sorte de seu predecessor. Foi um fracasso de vendas e desprezado pela crítica, o que contribuiu para que a banda terminasse pouco depois. Eles ainda voltaram em 1992 com um disco epônimo e, depois de um novo hiato, em 2001 houve nova reunião. Em 2007, por conta de problemas de saúde, Richard Loyd deixou o grupo, sendo substituído por Jimmy Rip.

Veja aqui a banda tocando "Foxhole" em 1978.

Há Temples

Temples ao vivo durante a passagem por São Paulo

Ainda na praia psicodélica, outra banda que fez meu coração bater mais forte ultimamente foi a inglesa Temples. Em 2012, os amigos James Edward Bagshaw (vocais e guitarra) e Thomas Edward James Walmsle (baixo) iniciaram um projeto caseiro. Após ter algumas canções postadas no YouTube, chegou aos ouvidos do chefão do selo Heavenly Recordings, que decidiu lançar o primeiro single deles.

Vendo que a coisa toda estava crescendo, chamaram um baterista (Samuel Lloyd Tom) e um tecladista (Adam Smith) para poder tocar suas músicas ao vivo. Nascia o Temples, com sua neo-psicodelia solar e pitadas de krautrock e pop. Seu primeiro – e até então único – álbum, Sun Structures, é o melhor disco de 1967 lançado em 2014. Pouco depois, saiu uma versão remixada dele, Sun Restructered.

Ano passado fizeram um showzaço em São Paulo, daqueles que vou guardar para sempre na memória afetiva. Pelo que consta, estão em estúdio gravando trabalho novo. Quando tiver novidades, posto aqui.

Ouça o álbum Sun Structures na íntegra clicando aqui

 

Alternativos

Lançado em 2013, o filme Coherence é uma dessas pequenas gemas de ficção-científica que passaram batidas, mas que valem – e muito – a visita. Feito com baixíssimo orçamento, compensa pela sua criatividade, que faz soltar um “uau!” a cada nova revelação da trama. Por falar nela: durante a passagem de um cometa perto da Terra, oito amigos estão em um jantar na casa de um deles, e coisas BEM estranhas começam a acontecer.

O negócio começa a virar uma mistura de Além da Imaginação com física quântica – com direito a uma das explicações mais didáticas sobre o Gato de Schrödinger que já vi em um filme – de dar um nó bizarro na cabeça.

O longa usa atores semi-profissionais, basicamente um cenário e apenas duas câmeras, mas não se engane: dá de dez a zero em várias superproduções hollywoodianas. Até onde sei, não chegou comercialmente ao Brasil, mas dá pra achar fácil na Internet em qualidade boa e legendado.

Anjos de cara suja

Psicodelia é uma das paixões deste blog e nada melhor para  marcar o retorno dele do que uma pincelada na grande banda The Black Angels. Naturais de Austin, no Texas, estão na ativa desde 2004. O som bebe de fontes certeiras como Led Zeppelin, The Doors, Zombies,13th Floor Elevators e The Velvet Underground - de quem tiraram o nome a partir da faixa "The Black Angel's Death Song", presente no antológico "disco da banana", do grupo de Lou Reed e cia, além de homenagear os vermes da Grande Maçã no seu logo, uma imagem em negativo da Nico, ex-vocalista do Velvet. 

É fato que não fazem nada de "novo", mas o fazem com tamanha propriedade e competência que sua música se torna muito mais moderna que qualquer pretensa "mudernidade". O primeiro disco, Passover, lançado em 2006, já é um clássico dos anos 2000, com mísseis de precisão cirúrgica como "Young Men Dead" e "Manipulation". Desde então, lançaram mais três álbuns oficiais (Directions To See A Ghost, de 2008; Phosphene Dream, de 2010; e Indigo Meadow, de 2013), todos igualmente impecáveis. Seu trabalho mais recente é o EP Clear Lake Forest, de dois anos atrás.

Como se não bastasse, dois de seus integrantes (Christian Bland e Alex Maas) fazem parte do coletivo The Reverberation Appreciation Society, responsável pelo - de longe - melhor festival da atualidade, o Levitation (ex-Austin Psych Fest), evento que ocorre desde 2008 no Carson Creek Ranch, também em Austin, no Texas. Anualmente, durante três dias, o festival promove uma esbórnia psicodélica, já tendo passado pelo seu palco nomes como Thee Oh Sees, The Flaming Lips, Spiritualized, Primal Scream, Zombies, Silver Apples, Temples, Os Mutantes e, claro, os próprios Black Angels. Em 2011, a banda esteve em São Paulo durante o SWU, show que este blog - num rasgo de genialidade - perdeu. Por favor, voltem!

Medo e delírio

 

Acontece em São Paulo até o dia 30 de setembro a Mostra Internacional de Cinema Independente. O festival procura trazer diretores e filmes que tiveram pouca ou nenhuma visibilidade no País. Entre obras dos EUA, latino-americanas e europeias, destaco uma pequena gema austríaca de 2014, Boa Noite, Mamãe (Ich Seh, Ich Seh).

Em uma casa isolada, a mãe de dois gêmeos retorna após sofrer um acidente e sofrer uma cirurgia facial. Com o rosto todo encoberto por faixas, os garotos passam a desconfiar que ela não é quem diz ser. A partir daí, os moleques começam a agir de modo cada vez mais estranho e violento, até que...

 

Não dá para contar muito mais sobre a trama, para não estragar. Só adianto que é um dos suspenses psicológicos mais tensos dos últimos anos, bem amarrado e que, ao terminar, vai dar vontade de ver tudo de novo para sacar os truques de mestre do roteiro. Os ardis do longa, por sinal, partem desde o trailer (clique aqui para ver), que sugere algo que, na realidade, o filme não é.

Se interessou, Boa Noite, Mamãe tem exibição amanhã, dia 19, às 19h30, na Sala Paulo Emillio Salles Gomes, no Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000, Paraíso, São Paulo), com outra chance no mesmo horário e local dia 23 deste mês.

Para conferir a programação completa da mostra, clique aqui.

Singapore Sling: caverna de gelo

 

Sua praia é Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine? Gosta de melodias sessentistas envoltas em paredes de feedback e temas sombrios? Então você precisa ouvir a banda Singapore Sling. Quem deu a dica foi um chapa deste blog durante o show do Crocodiles e, desde então, virou uma das prediletas da casa.

O grupo surgiu em 2000 na cidade de Reykjavik, na Islândia. Foi criado pelo vocalista e guitarrista Henrik Bjornsson e pelo também guitarrista Einar Kristjánsson e pouco depois evoluiu para um sexteto. O nome foi emprestado por Bjornsson de um filme homônimo de 1990 do diretor grego Nikos Nikolaidis, tão raro que o próprio vocalista disse que ainda não conseguiu assistir. Chegaram a fazer elogiadas apresentações pela Europa e Estados Unidos, mas, infelizmente, ainda continuam, de certa forma, obscuros.



Pelo que deu para apurar, já lançaram seis álbuns oficiais, mais um punhado de compilações e singles, todos altamente recomendáveis. O disco de estreia, The Curse Of Singapore Sling, saiu em 2002 e abre com uma obra-prima da microfonia em forma de canção, a faixa "Overdriver". Vale destacar também a "ensolarada" "Summer Garden" e a irreconhecível versão de "Dirty Water", clássico de 1966 da banda The Standells.

Em 2006 deram mais uma prova de que bebem nas fontes certas e participaram do disco-tributo aos geniais Monks (leia sobre eles aqui) com uma cover de "I Hate You". O trabalho mais recente, The Tower Of Foronocity, foi lançado ano passado e não abre concessões, trazendo exatamente o que se espera do Singapore Sling: um pop cavernoso e deliciosamente viciante, caso de faixas como "You Drive Me Insane" e "Careful, I'm Evil".

ÁLBUNS OFICIAIS:

The Curse Of Singapore Sling (2002)

Life Is Killing My Rock'n'Roll  (2004)

Perversity, Desperation and Death (2009)

Singapore Sling Must Be Destroyed (2010)

Never Forever (2011)

The Tower of Foronocity (2014)


Ouça:


Summer Garden

Life Is Killing My Rock'n'Roll


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